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"... usou da palavra o
professor, recentemente aposentado, daquela escola, Antero Monteiro, conterrâneo
de Joaquim de Sá Couto e por intermédio de quem chegara a oferta do retrato, o
qual fez o elogio e a descrição biográfica do Comendador Sá Couto.
...
A seguir se transcrevem as palavras do
professor Antero Monteiro, ...:
Comendador Joaquim de SÁ Couto
“Agradeço à comunidade ter delegado em mim dizer algumas palavras sobre o
Comendador Joaquim de Sá Couto, patrono desta escola, em que leccionei durante
pelo menos um quarto de século.
Afazeres inadiáveis impediram o nosso colega Francisco Azevedo Brandão de
estar presente, pois seria ele, que tanto se dedicou à história de Espinho e
investigou sobre Sá Couto, quem vos poderia falar com os seus conhecimentos,
que, todavia, aqui irei também utilizar.
Mas é com prazer que o faço, por ser Sá Couto um conterrâneo meu, que
muito aprecio, essencialmente pela sua enorme estatura moral, condicente com o
facto de ser patrono de uma escola, que foi a minha, e, como tal, se oferecer
como figura modelar a um projecto educativo que não perde de vista o saber, o
saber-fazer e o saber-ser.
Aliemos, pois, dois retratos: o retrato moral deste homem de boa memória,
que fala de si mesmo através das suas obras concretas e o retrato físico que
viemos aqui descerrar na companhia do Dr. Fernando Sampaio Maia e que ele me
confiou pessoalmente para oferecer a esta escola. A sua presença muito nos deve
honrar a todos: primeiro, pelos seus gestos de nobreza a que sempre nos
habituou, como foi o caso da preciosa dádiva do retrato do nosso patrono;
segundo, por se tratar de um descendente de Sá Couto e, claro, do seu sobrinho,
também insigne testamenteiro do Comendador, o médico cirurgião João Augusto da
Cunha Sampaio Maia, Conde de S. João de Ver; terceiro, por ser o presidente da
Fundação Sá Couto e director do Lar Condes de S. João de Ver, em S. Paio de
Oleiros.
O Comendador Sá Couto nasceu, pois, nessa vila de S. Paio de Oleiros em 26
de Março de 1820. A mãe, D. Custódia Maria da Costa faleceu pouco depois, pelo
que, no dizer do Conde de S. João de Ver, viveu quase desde os primeiros anos
entregue aos cuidados de sua avó paterna, D. Josefa de Barros. Seu pai, o
industrial José de Sá Couto, foi o primeiro a construir uma casa de pedra e cal,
por volta de 1843, na Praça Velha, há muito levada pelo mar.
Activo e inteligente, dedicou-se desde tenra idade ao comércio, refere ainda
o seu testamenteiro, e conseguiu ver coroados os seus esforços,
encontrando-se dentro de pouco tempo habilitado a adquirir a fábrica de papel da
Cardenha do Candal de Baixo, em S. Paio de Oleiros (e que fora fundada em
1811, segundo Pinho Leal), onde explorou por largos anos o fabrico de papel.
Concorreu como produtor e expositor a várias exposições nacionais e
internacionais e teve o prazer e a glória de ver premiados os produtos da sua
indústria na Exposição Industrial de 1861, na Exposição Agrícola de Braga de
1863, na Exposição Internacional Portuguesa de 1865, na Exposição Universelle à
Paris de 1867, na Weltansntellung 1870 em Viena e na Exposição Universal de
1878.
Participou activamente na política do seu tempo, tendo sido chefe do
Partido Progressista da Feira e vereador da Câmara da Feira, onde, segundo Sousa
Costa, muito pugnou pelos interesses de Espinho.
Mantendo as melhores relações com o Conselheiro Anselmo Brancamp, com D.
António Alves Martins, Bispo de Viseu, e com o Conselheiro Luciano de Castro,
todos eles habituais veraneantes em Espinho e na Praia da Granja, conseguiu
transformar uma pequena casa da guarda de passagem de nível, existente na altura
perto da actual Rua 19, num apeadeiro, que passou depois a Estação dos Caminhos
de Ferro e foi inaugurada em 17 de Setembro de 1875.
Sá Couto foi agraciado com a Comenda da Ordem de Nossa Senhora da Vila
Viçosa, concedida pelo rei D. Luís, pelos relevantes serviços prestados à região
e ao país.
A ele se deveu, por força do seu testamento, a construção do
Hospital-Asylo Nossa Senhora da Saúde em S. Paio de Oleiros, cujos préstimos de
quase um século a toda a região envolvente, incluindo Espinho, e aos mais
carenciados foram de um valor impossível de estimar. A inauguração do Hospital,
ocorrida no dia 6 de Janeiro de 1909, a que acorreu também numeroso povo de
Espinho, utilizando comboios ordinários e extraordinários da linha do Vouga,
com desusado movimento, dizem os relatos da altura, ocupou a primeira página
de muitos jornais como o Primeiro de Janeiro e a Gazeta
d’Espinho
Abrigando no seu coração o culto do Bem, escreveu ainda o Conde de
S. João de Ver, sensível perante a miséria que o enternecia e o sofrimento
que o contristava, legou à terra que lhe fora berço (mas disso não apenas os
Oleirenses e Feirenses beneficiaram, acrescento eu) uma parte do produto dos
seus passados labores, que pudesse mitigar lágrimas de dor e desconforto, de
fome e desolação.
E assim, com o generoso e avultado (na altura) legado de 120
contos de réis, habilitou o seu testamenteiro a mandar levantar este belo
monumento de caridade, em harmonia com as suas disposições testamentárias.
Também Espinho foi beneficiado pelo trabalho filantrópico do Comendador.
Azevedo Brandão refere que, para além de ter conseguido, como se disse, o
apeadeiro ferroviário, dirigiu a construção da capela de Nossa Senhora da
Ajuda e presidiu à Comissão de Auxílio às vítimas do mar. A este
propósito, o primeiro historiador de Espinho, o Padre André de Lima, recorda
um gesto seu que basta para se reconhecer quanto Espinho, o Espinho antigo,
deveu a esse grande amigo (...): a partir de 1863 impôs-se a necessidade de
substituir os velhos “palheiros” de madeira, de varandas esbeiçadas sobre as
ruas e situadas em ruelas da povoação, algumas em encruzilhadas sem saídas
disseminadas pelo areal, por casas de pedra e cal.
Para
isso, porém, era preciso muito dinheiro. Onde ir buscá-lo? Sá Couto pôs às
ordens da nossa gente os enormes e bastos capitais por meio de empréstimos e
realizou-se o milagre, operando-se essa transformação em poucos anos. O mar a
partir de 1889 fez em Espinho grandes destroços, lançou por terra muitas casas,
reduzindo muita gente à miséria, mas o Comendador Sá Couto foi talvez aquele a
quem o mar mais prejuízos causou (...).
O ilustre advogado feirense Dr. Celestino Portela, num livro recente
intitulado justamente “Um Livro”, refere na biografia de Sá Couto, dedicada ao
Dr. Fernando Sampaio Maia, afinal um continuador da sua obra e dos seus
propósitos de servir os mais desfavorecidos, que o nome do Comendador está
ligado a todas as iniciativas do alvorecer de Espinho, podendo salientar-se o
Edifício para uma Assembleia Recreativa, para cuja Direcção foi eleito em
1866 e cujos objectivos, constantes dos estatutos aprovados pelo rei D. Luís,
contemplavam o desenvolvimento e conservação de relações de convivência e
delicada sociedade entre os associados, por meio de reuniões diárias para
conversação, leitura e jogos que não sejam de azar.
Celestino Portela alude ainda ao respeito que merecia das gentes do mar,
ao lado de quem sempre estava, e mencionando as homenagens que constituem
à sua memória o facto de a Rua 18 ter tido o seu nome e de ser o patrono desta
escola, transcreve o seguinte parágrafo da Gazeta d’Espinho, a
propósito da notícia da sua morte, ocorrida em 24 de Janeiro de 1902:
Dedicava a esta praia uma amizade sincera; transferira para aqui ultimamente a
sua residência definitiva, vivendo há mais de três anos na sua casa onde acaba
de expirar. Mereceram-lhe sempre particular interesse os negócios desta
localidade, embora uma isenção, que ninguém lhe levará a mal, o colocasse em
neutral atitude nos últimos acontecimentos entre Feira e Espinho.
O
certo é que, como também Celestino Portela faz notar, à data do seu nascimento,
Espinho era um lugar da freguesia de Anta, concelho da Feira, e, quando faleceu,
era sede de concelho, criado por Decreto de 17 de Agosto de 1899.
Estamos, pois, hoje, a comemorar, com algum atraso (mais vale tarde do
que nunca), o 1.º centenário do seu desaparecimento, que não da sua obra, que
não se apagará das páginas da história local e continua viva na magnanimidade
dos corações dos que não esquecem e seguem o seu exemplo.
Este valioso retrato que nos foi oferecido sem o mínimo regateio, como
resposta a uma simples insinuação, mais insinuação do que pedido, aqui ficará a
lembrar à comunidade escolar a dimensão moral e realizadora de um homem
inteligente que soube ser útil e soube transformar. Uma inscrição existente no
jazigo da família dos Condes de S. João de Ver, em S. Paio de Oleiros, onde Sá
Couto também descansa, diz assim: Toda a vida deixa rasto que fica.
É por isso que a opção por uma figura ímpar como foi Joaquim de Sá Couto
para nosso patrono foi de inteira justeza e justiça: com o seu exemplo, o nosso
esforço educativo poderá apostar no bom uso das faculdades intelectuais, no
sentido de ser-se útil aos semelhantes e capaz de transformar o Mundo para
torná-lo mais justo e mais habitável. Manuel Alegre diz num dos seus poemas:
Não somos mais do que o sol do que fazemos.
....”
(texto fornecido por Anthero Monteiro)
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