A Festa em honra de Nossa Senhora da Saúde e de Santo António, em S. Paio de Oleiros, que foi considerada «a maior romaria do distrito de Aveiro», mantém, ano após ano, o seu tradicional brilhantismo e continua a concitar a visita de incontáveis forasteiros provenientes de todo o lado.
Não é fácil datar o início destas festividades, pelo menos no tocante ao culto local da Senhora da Saúde, dado que o do Santo António é aqui nitidamente mais recente. Anote-se ainda que, há cerca de um século, também o S. Paio ou Pelágio, orago da freguesia, era, segundo consta da tradição oral, contemplado, nesta semana festiva, com uma procissão que se realizava à segunda-feira. Pode dizer-se, no entanto, com toda a segurança e à partida, que a tradição tem pelo menos 150 / 200 anos: os mais idosos da freguesia recordam-se dela desde crianças e ouviam já os seus avós falar nela. O Dicionário Corográfico de Portugal Continental e Insular, de 1938, da autoria de Américo Costa, menciona a «romaria de Nossa Senhora da Saúde, na freguesia de Oleiros, a 14, 15 e 16 de Agosto». O documento mais antigo que com ela se relaciona, por nós até agora encontrado, é de 1862 e faz referência aos «arraiais festivos», o que significa que o início da festa é anterior à edificação da igreja nova, que, em 1885, veio substituir a que existia já decrépita, em terrenos onde é hoje o cemitério. A construção dessa igreja foi dirigida pelo P.e José Ferreira de Almeida, que tomara posse da paróquia em 22 de Fevereiro de 1884. Os documentos da Junta da Paróquia da responsabilidade deste sacerdote fazem menção assídua àquela festa. Aí se pode verificar, por exemplo que: em 1897, foi concluído «o muro do adro do lado do mar, antes da festa d’Agosto»; em 1902 e 1904, procedeu-se à «compostura do caminho pela Senhora da Saúde»; em 1906, foi adquirido «um pluvial ou capa de asperges de damasco florido para as festas», pelo preço de 24.500 réis, sendo, no entanto, a maior verba desse ano de 80.000 réis despendidos na compra de «um manto bordado a outro de cetim azul para a Nossa Senhora da Saúde»; em 1907, foi preciso pagar a quatro mulheres que «lavaram toda a igreja antes da festa da Senhora da Saúde». Várias notícias dos jornais do início do século XX fazem alusão às festividades oleirenses, fazendo pressupor a regularidade da sua realização: em 1906, por exemplo, a Gazeta d’Espinho noticia que a festa «decorreu com o brilhantismo dos mais anos» e que «os nobres Condes de S. João de Ver ofereceram nesse dia às pessoas das suas relações e amizade um opíparo jantar, seguido de soirée, onde se dançou com todo entrain até de madrugada»; também em 1910, ano em que a República seria implantada dois meses depois, o mesmo jornal espinhense, com data de 14 de Agosto, anuncia a festa da Senhora da Saúde de Oleiros e dos Carvalhos, para o dia seguinte, para além de «um arraial dos mais típicos do género» que se realizaria em Meladas, aqui ao lado, no dia 21 do mesmo mês. Prova de que o culto à Senhora da Saúde era um costume bastante arreigado nos Oleirenses dá-o o testamento do Comendador Joaquim de Sá Couto, do lugar do Candal, feito em 1899, pelo qual deixa à Junta da Paróquia cem mil réis, «destinados à ornamentação e alfayas do altar e augmento do culto de Nossa Senhora da Saúde que se venera na respectiva igreja» e, ainda, cento e vinte contos de réis para a construção de um Hospital e de um Asilo, que serão inaugurados em 1909, e a que pretende se dê o nome, em ambos os casos, como veio a acontecer, de «Nossa Senhora da Saúde». Apesar de a nossa festa não constar do Santuário Mariano, publicado em 1721 por Frei Agostinho de Santa Maria, que é, com os seus nove volumes, um vasto repositório das romarias e devoções à Virgem no nosso país, que inclui outras da vizinhança, como é o caso da Nossa Senhora do Campo e da Nossa Senhora das Neves, em Argoncilhe, é razoável recuar ainda mais no tempo e aventar algumas hipóteses para a origem da festa oleirense. É que esta veneração tem que ter uma explicação de algum modo ligada ao passado local, embora pareça ter-se perdido nas brumas da História. Lembremos, por analogia e como exemplo, o caso da festa da Senhora da Saúde, que se realiza na Mouraria, em Lisboa, onde foi construída, na sequência da peste de 1506, uma pequena igreja dedicada a S. Sebastião, o santo invocado como protector em relação a esta calamidade, como acontece na sede do nosso concelho, que, desde o século XVI, lhe dedica, a 20 de Janeiro, a festa das fogaças. Um novo surto epidémico em 1569 obrigou a grande debandada da população e ao refúgio da família real em Sintra. No ano seguinte, D. Sebastião autorizava a realização de uma grande procissão penitencial em honra da Senhora da Saúde no dia 20 de Abril, numa tentativa de erradicação da peste. As imagens de ambos os santos, após várias vicissitudes, coabitam hoje a Igreja denominada de Nossa Senhora da Saúde e S. Sebastião, continuando a tradicional procissão a realizar-se, agora no mês de Maio. As incursões pestíferas também visitaram as Terras da Feira e deixaram por aqui marcas indeléveis. De acordo com o P.e Miguel de Oliveira, a calamidade de 1191, no tempo de D. Sancho I, teria dizimado a população e causado na zona enorme ermamento. Um documento de 1355 do Mosteiro de Grijó alude também a uma «pestelensa» que atingira as imediações, reportando-se decerto à de 1348 que afectou profundamente toda a Europa e que é também mencionada pelo P.e Miguel de Oliveira. Escreve ele que «parece ter causado grandes estragos nesta região a epidemia de 1348, chamada a “mortandade grande” ou “peste negra”, que em Portugal durou uns três meses». Dá ainda o exemplo de duas igrejas muito próximas da Feira – Proselha (da actual freguesia de Mosteirô) e Souto – que se viram obrigadas a unir-se, porque se encontravam «ambas ermadas pelas guerras, peste e esterilidade», tendo «uma 7 fregueses e a outra 12». Cita ainda o caso da freguesia de Santa Maria de Meladas, que hoje é um mero lugar da vila de Mozelos, deste concelho, e que «pelos mesmos motivos, viria a extinguir-se» com aquele estatuto. Também S. Paio de Oleiros e a vizinha Santa Maria de Lamas têm uma história de reveses relacionados com a peste e vivenciados de mãos dadas. Em 1435, as suas igrejas foram anexadas à de S. Miguel de Arcozelo, hoje do concelho de Vila Nova de Gaia. As Memórias Paroquiais desta última freguesia explicam que «a cauza desta mudança forão Pestilências, guerras, e Esterelidades, tan crueis que ficarão só sinco pessoas viuas na Abbadia de Oleyros, e tres na Reitoria de Lamas», pelo que não era possível com o rendimento de ambas as igrejas «sustentar e governar hum Reytor». Daí a anexação e incorporação naquela igreja do concelho de Gaia, ficando o padre encarregado de ambas as freguesias com a obrigação de rezar missa um domingo em Lamas e outro em Oleiros, deslocando-se à vez a cada uma das igrejas os fiéis da outra freguesia. Foi neste contexto de permanente susto e contínua lembrança da precariedade da vida que, como noutros muitos lugares, os homens, impotentes, terão recorrido também a Deus, através dos seus intercessores: a Virgem Maria e os santos. Daí a possível origem da festa em honra de Nossa Senhora da Saúde nesta freguesia, onde não falta, aliás, a imagem de S. Sebastião, a desfilar no préstito solene. Numa história tão longa, houve certamente períodos difíceis que fizeram perigar a tradição, houve acidentes e incidentes, confrontos de vontades e mal-entendidos. Por exemplo, o litígio entre a Comissão de Festas de 1927 e o Abade Joaquim Ferreira Salgueiro (que era natural de Santa Maria de Lamas e fora confessor de Salazar), por questões relacionadas com as verbas gastas, queixando-se aquela Comissão de lhe ter sido exigida a importância de cinquenta escudos para jantar dos padres e o sacerdote de falta de clareza nas respectivas contas, no que foi apoiado pela Comissão do ano seguinte. O desentendimento deu lugar a insultos e a uma troca de uma série de comunicados, alguns publicados na Gazeta d’Espinho ou no Correio da Feira, que a Comissão de 1927 coligiu num pequeno livrinho – Recordação da Comissão de Festas a Nossa Senhora da Saúde em Oleiros de 1927 – que publicou em 1931. Recorde-se ainda o perigo que rondou a localidade, durante as festas em meados dos anos 50 (talvez 1955), quando um foguete, lançado no sábado à tardinha, caiu na cesta dos restantes foguetes, tendo-se produzido uma explosão em série, o que só por milagre não redundou em tragédia, mas fez o povo correr em pânico para a igreja para ver o que tinha acontecido. Na memória de todos estão ainda também as lamentáveis cenas de violência que assolaram a paróquia, durante os festejos de 1977, e de que resultaram a interdição da Igreja Paroquial, por ordem do Bispo do Porto, e a renúncia por parte do Pároco, cenas essas provenientes do confronto de ideias político-religiosas que então se produziu entre sectores da freguesia acerca do modo de fazer a festa: afinal, uma polémica tão antiga quanto a própria Igreja, que tem acontecido noutros tempos e lugares e tem muito a ver também com a difícil conjugação entre o sagrado e o profano. Tudo aponta, porém para a continuidade pelos anos fora desta tradição, por se tratar de uma obra colectiva que, em vez da dissensão, exige espírito de colaboração e de fraternidade no cumprimento de uma promessa perdida no tempo, que cada crente vai renovando a seu modo e é expressão de gratidão para com a divindade protectora. Atravessando o tempo e sendo permanente renovação na memória de um passado de glórias e de vicissitudes, a festa da Senhora da Saúde é a expressão mais eloquente da identidade do povo oleirense. Aqui se tentou, por isso, aprofundar, na medida do que é por enquanto possível, o conhecimento do seu passado para se poderem ir construindo colectivamente as linhas do seu futuro. S. Paio de Oleiros, 30 de Maio de 2004 Anthero Monteiro |